A luta maior que o cifrão

O futebol tem hoje, desde sua primeira partida oficial, 155 anos de história. Mas isso não quer dizer que a pelota, antes, não divertia pessoas pelo mundo. As teorias de origem são diversas, mas não são nosso foco aqui.

Há 155 anos duas federações se enfrentaram oficialmente. Dois países vizinhos, Inglaterra e Escócia.

                                                Ilustração da rivalidade histórica entre Inglaterra x Escócia

De lá até hoje, foram muitas lutas para a inclusão e evolução no esporte. Passando por segregação racial, social, de gênero e possuindo até nuances escravagistas, o esporte mais popular do mundo nunca foi exemplo de igualdade.

Hoje, ainda, crianças de 13 anos são negociadas por promessas muitas vezes infundadas que vem a se frustrarem mais tarde. Hoje, ainda, 80% dos jogadores de ligas profissionais masculinas nacionais recebem em torno de um salário mínimo para exercer a profissão sonho do brasileiro médio.

O êxito continua sendo para poucos privilegiados. Muitos com doses cavalares de técnica e capacidade tática, outros com vigor físico invejável e, também, aqueles que abusaram da sorte.

Isso tudo foi uma introdução. Não desista e siga a leitura, a discussão é nobre.

Na semana passada a seleção feminina de futebol fez o seu segundo jogo pela Copa do Mundo e foi derrotada pela Austrália por 3×2, com polêmicas, reviravoltas e todo o enredo que uma partida de futebol competitivo tem direito.

Em comemoração ao primeiro gol, de pênalti, Marta trouxe às vistas um protesto em forma de chuteira. Exibiu com ares de desabafo sua ferramenta de trabalho, lisa, livre de patrocinadores (como a maioria das chuteiras que Pelé usou) e encravada com o símbolo da igualdade de gênero.

 

Marta “comemora” gol contra a Austrália e exibe a chuteira sem marca e com o símbolo da igualdade

Em notícias que apareceram antes e depois do ato, ressalta-se o anseio de Marta por assinar contratos que sejam semelhantes aos dos atletas de topo do futebol masculino.

A luta é justa e será trilhada por décadas. Como foi a inclusão dos negros e carentes no futebol, com destaque ao Vasco da Gama. Como foi a guerra contra o nazismo no Dínamo de Kiev.

Igualdade não nasce a fórceps. É um caminho a ser trilhado, principalmente quando se trata de igualdade comercial onde os atletas não são iguais.

Martin Luther King conduziu as mudanças sócio-raciais nos EUA por 13 anos

Cabe um exemplo. Profissões mais antigas como engenharias, medicina e advocacia, possuem conselhos que regulam salários, direitos, acordos e convenções e, em alguns casos, tem alta representatividade nos rumos nacionais. Profissões mais novas, ligadas à informática, por exemplo, não possuem uma representatividade tão grande quanto a conquistada pelas citadas anteriormente em séculos de serviços prestados.

Tecnicamente Marta merece toda a glória que já alcançou e muito mais. Não atoa é a maior artilheira em copas, junto a Klose, e a maior detentora de prêmios Bola de Ouro (chorem, CR7 e Messi), como melhor jogador(a) da temporada.

Atingir a glória financeira é diferente. O futebol feminino passa pela terceira ou quarta geração de profissionais. Antes delas existiram guerreiras que lutaram e conseguiram quebrar a barreira imposta pelo, até então, esporte masculino. Quando o futebol masculino passou pela sua quarta geração, nem o profissionalismo existia ainda, quanto mais os patrocínios de fornecedores esportivos. No país onde 80% dos jogadores luta pela bola a troco de um salário mínimo, Marta seria uma privilegiada financeiramente. E quando nos aprofundamos na questão comercial do esporte, o abismo fica maior. Qual atleta é comercialmente maior? Messi ou Cristiano Ronaldo? Cristiano é disparado o atleta com contratos de publicidade maiores, até por sua postura pública diferente do retraído argentino. Tecnicamente acredito que Messi seja superior. Mas futebol e finanças não se tratam somente de técnica.

Ao levar em consideração a rede social da moda, o Instagram, Messi tem 122 milhões de seguidores. Cristiano tem 171 milhões. E Marta? 1,5 milhões. Alguém acredita que os patrocinadores não levam em consideração isto para mensurar o valor final do contrato?

A Copa do Mundo de futebol Masculino é o evento esportivo mais visto no mundo, em pé de competição com a Olimpíada, onde são disputados 28 esportes diferentes. Seu início se deu em 1930, muitas gerações de futebolistas após os eventos daquele longínquo 0x0 entre Escócia e Inglaterra na primeira partida oficial.

Virgil van Dijk, zagueiro (posição comercialmente muito menos atrativa), campeão da Champions League pelo Liverpool, longe de ser um super ídolo incontestável, possui 3 vezes o número de seguidores de Marta.

Paulinho, atacante, recém campeão do Torneio de Toulon, competição para equipes sub-20, possui um terço dos seguidos de Marta.

A postagem de Marta sobre a causa teve cerca de 280 mil curtidas. Porque as pessoas que são tão engajadas e ferozes nas redes sociais não se mostram apoiadoras de Marta e da causa multiplicando os números que realmente importam para que o lado comercial cresça?

Post de Marta no Instagram, utilizando a camisa do movimento

 

Post aleatório de Cristiano Ronaldo

 

Uma postagem de Cristiano com o filho no colo dentro da piscina tem 5 milhões e 900 mil curtidas.

Qual você curtiu? Qual o patrocinador enxergou como maior retorno?

Para que, comercialmente, Marta se equipare a Messi, Cristiano, Neymar e os outros atletas masculinos de topo, ela precisa ter a visibilidade e a representatividade econômica que estes atletas tem. Você, que está aí agora, lendo, deve seguí-la nas redes sociais, deve assistir os jogos e gerar audiência, deve incentivar para que mais meninas cruzem a linha que separa a arquibancada do interior do gramado. Isto não acontecerá a fórceps. Será uma luta diária. Demorará décadas. Como todo ato natural de empoderamento de uma profissão ou classe.

Esta luta não merece ser rebaixada a um cifrão. É uma luta por espaço, por direitos e igualdade. A glória comercial virá.

Se você acredita na luta, lute.

 

Que Marta continue sendo uma líder técnica e ideológica, para que, daqui a algum tempo, outras não precisem lutar esta batalha, que se iniciou com as guerreiras praticamente não remuneradas e com profissões diversas do Araguari em 1958 e teve mais um capítulo com as chuteiras de Marta.

Equipe do Araguari que excursionou e desafiou as leis proibitivas da época.

Fernando Leonardo Vieira

  • Professor
  • Coordenador de TI e apaixonado por futebol
  • Estatísticas e finanças.

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